
Como aprender música num mundo que não para, cheio de pressa e cobranças?
Este é um desafio grande nos dias atuais, porque sentar-se hoje na mesa é facilmente um convite pra ver outras pessoas ao seu lado encarando um celular enquanto rolam compulsivamente a tela.
As informações que passam pelos nossos olhos são tão rápidas que as notícias de 3 horas atrás já são consideradas antigas por quem chega mais tarde numa conversa. A pessoa sente-se perdida por não ter visto o celular e não estar a par dos acontecimentos recentes.
* As trends cansam rapidamente em uma semana.
* As músicas já não duram tanto na playlist das pessoas porque cansam no ouvido depois de repetirem tantas e tantas vezes nessas mesmas trends que rolam nos celulares.
* As músicas estão encurtando, possuindo uma média de dois minutos e meio porque as pessoas não têm mais paciência de escutar áudios maiores.
* Pesquisas mostram que os mais jovens já não tem paciência nem para filmes e séries.
Tudo no mundo está muito rápido, mas tem algo que não acompanha este ritmo desenfreado: O aprendizado.
Infelizmente (ou felizmente) ainda não conseguimos colocar um chip que acelere nosso aprendizado. E existe aí um descompasso da nossa realidade acelerada com o processo de aprender. Resta-nos reaprender sobre a paciência.
REAPRENDENDO SOBRE PACIÊNCIA E APRENDIZADO
O aprendizado de qualquer coisa que seja exige tempo e dedicação, mas vamos focar hoje no aprendizado da música.
Aprender um instrumento exige horas de estudo de técnica e de repertório para alcançar excelência. Mas como você vai dizer para si: “Eu tenho que ser paciente comigo, tenho que ir devagar.” Como apreciar cada etapa do aprendizado se seu cérebro já está condicionado a ter resultados ou recompensas mais rápidos por conta da tecnologia?
O primeiro passo é entender as armadilhas e o funcionamento do mundo acelerado e o quão afetado você está por ele no seu dia a dia.
Digo por experiência própria que senti em mim uma regressão no quesito paciência para sentar e aprender um instrumento. Sempre fui uma pessoa extremamente auto exigente e perfeccionista comigo, o que de fato atrapalha muito em curtir o processo porque constantemente estou me repreendendo enquanto aprendo.
Mas depois de ficar um tempo parada sem tocar violão, retornei para aprender uma música e me vi completamente irritada por não conseguir aprendê-la tão rápido quanto eu queria. E isso parecia vir não mais só deste lugar do perfeccionismo, mas de uma impaciência.
A música era um pouco mais difícil do que as músicas que eu costumava tocar, com técnica e dedilhados que eu tinha que aprender por conta própria (não é meu principal instrumento). Eu queria aprender em tempo hábil para gravar e postar nas redes sociais.
Eu estava aprendendo uma música famosa “Take on me” da banda “a-ha”, mas era numa versão que toca na série “The last of us”. Eu queria postar enquanto estava no ar. Mas perdi o “timing”. E como vimos no inicio do texto: Tudo acontece rápido na internet.
Acabei me frustrando e só voltei recentemente a tocar, mas agora com outra cabeça.
E refletindo sobre isso, percebo que a culpa não é só do algoritmo. Vem da necessidade de pertencer. Queremos entregar o que as pessoas estão consumindo, queremos fazer parte da conversa, e acabamos tendo uma dificuldade imensa de simplesmente dizer ‘não’ para essas expectativas externas.
É claro que muito se deve ao fato de que a divulgação do trabalho hoje está totalmente atrelada às redes, mas seguir as “trends” o tempo todo também mata a nossa originalidade. Mas isso é papo pra outro texto.
O ponto é que é necessário aceitar que você precisa de mais tempo no seu quarto, de porta fechada, só estudando e errando sem ninguém ver.
E por isso eu trouxe duas reflexões ou “dicas” práticas que irei destrinchar abaixo.
Reaprendendo sobre aprender música na prática
O que devo fazer?
* Aceitar que vou levar um pouco mais de tempo do que eu pretendia para aprender
* Curtir mais o processo de aprender a música. Observando a letra, o dedilhado, o aprendizado em si para decorar a letra e as notas.
Sabe por que vale a pena aceitar esse tempo a mais? Porque se o seu sonho, assim como o meu, envolve fazer música de verdade, cantar com alma, criar arranjos próprios e viver do seu trabalho autoral no futuro, você precisa de fundações fortes.
E uma fundação musical, aquela que te dá liberdade para criar e se expressar de verdade como artista, não se constrói da noite para o dia. Exige raízes.
Obviamente não podemos entrar numa caverna e tentar viver alienados, mas precisamos tentar encontrar um equilíbrio entre o que é saudável e o que é realmente necessário para a nossa realidade.
E o que fazer com isso então? Talvez um bom exercício que vou deixar para vocês, é pensar e reservar o dobro de tempo do que você inicialmente programou para aprender algo.
* Se você imaginou que vai aprender uma música em um mês, no mínimo duplique esse tempo. No mínimo!
É óbvio que este conselho também depende do nível que você está para determinada atividade, do quanto você se dedica, da dificuldade da atividade e também de um pouco de noção e honestidade de você para consigo mesmo!
Talvez se você não tiver muito conhecimento sobre o assunto que você está aprendendo você possa errar inicialmente nessa avaliação de tempo. Mas aí também cabe o exercício da paciência para aprender sobre o próprio processo de aprender! Parece complexo ne?
Mas basicamente é entender que você está aprendendo como se aprende uma habilidade nova. Vamos de exemplo prático:
Você está aprendendo piano e não sabe quanto tempo leva para aprender uma música porque você nem sabe como é tocar e nem como é estudar uma música.
* Então num primeiro momento você aprende técnicas de estudo e vê de forma empírica quanto tempo você leva para executar uma música ou parte dela.
* Com isso seu repertório de aprendizado aumenta e você passa a entender quanto tempo leva para aprender alguma coisa em aula e em casa. Por um período você vai ter essa média de tempo estabelecida, até que você aprimore certas habilidades e talvez comece a ir mais rápido.
* Mas você pode ir anotando mentalmente ou fisicamente esse tempo que leva na atividade e então você tem a resposta do que eu falei lá em cima: Aceitar que você vai levar mais tempo numa tarefa.
* Você vai ter essa média de tempo, mas a cada aula ou técnica nova você pode incorporar mais tempo!
E tudo isso envolve o tema de hoje: Paciência! Paciência para entender e digerir todos esses processos! Não é fácil. Mas o primeiro passo já estamos fazendo, desmembrando ele!
O segundo ponto que eu trouxe foi sobre curtir o processo. Talvez ele seja o mais óbvio mas eu também vou tentar descrever para você!
* A primeira coisa é tirar as distrações, e a primeira delas provavelmente será o seu celular. Coloque no silencioso e desligue a internet!
* E o que fazer depois? É a hora de colocar o foco nos detalhes que a gente acaba ignorando quando está com pressa. Lembra que eu falei lá no começo sobre observar a letra, o dedilhado e as notas? É exatamente sobre isso.
Curtir o processo é prestar atenção de verdade no que você está fazendo. É observar como a sua mão se move no instrumento, celebrar quando a sua memória consegue fixar uma mudança de acorde que parecia impossível… É entender a poesia por trás do que você está tocando. Tudo isso sem a pressão de ter que provar nada pra ninguém!
Quando você junta esses dois pontos que falei, aceitar o seu próprio tempo de aprendizado e focar nesses pequenos detalhes da música, a impaciência tende a perder a força. Você para de brigar com o instrumento e volta a sentir prazer em aprender.
A paciência é uma construção diária, ainda mais no mundo acelerado. Não pense que de uma hora para outra vai ficar fácil.
Você terá recaídas, porque o sistema que envolve as redes sociais é muito forte e é muito fácil de entrar no loop. Mas seguir estes passos e focar no agora ao tocar já vai te deixar mais consciente e já é um excelente começo.
Me conta aqui se funcionou para você pensar desta forma!
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