
Têm pessoas que parecem frias à primeira vista… Mas quando você observa com mais calma, percebe que talvez não seja falta de emoção, mas sim uma tentativa de manter tudo sob controle.
Observe a forma delas de fala, de olhar, de andar. Como agem? Às vezes essa rigidez pode ser uma forma de não se perder em si mesmo. E isso me veio na cabeça quando eu pensei na personagem Wandinha da série da Netflix.
O CORPO COMO CONTROLE
Observe que a personagem fala com pausas muito definidas, tem um olhar afiado e se movimenta de forma tensa… Quase simétrica. O corpo dela não relaxa. Na minha visão isso pode ser uma forma dela de se “organizar” no mundo.
E associando isso de forma sonora, eu imagino um som mais focado, mais direto…
E porque eu não acho que seja frieza, pelo menos nesse caso? Porque durante a série toda ela demonstra ter vários sentimentos. Ela sente raiva da mãe por não conseguir as respostas que quer e ser privada de um artefato que ela queria ter acesso. Ela sente medo de perder a amiga e ela sente prazer quando tortura o irmão.
Você pode me dizer, nossa, mas se ela tortura o irmão ela é horrível. Mas neste contexto não. Eu não lembro disso ser explicado nos filmes, mas na série a gente passa a entender como e porque a família Addams é diferente, e não apenas estranha. Porque eles possuem dons/poderes (como você preferir chamar). Logo se torna muito plausível e entendível como o “Feioso”, irmão da “Wandinha”, aguentava ser torturado por ela (não só aguentava como gostava né).
E o que mais acontece nesse sentido? Ela tem o controle do quanto pode torturar ele. Tanto que quando ele corre sério perigo de vida real por outra pessoa na série, ela se preocupa e corre para ajudá-lo.
CELLO COMO ESPELHO
Numa cena que ela está tocando cello, quando a professora de música escuta ela tocando uma música de Prokofiev , a tutora a orienta falando que ela deve parar de só tocar mecanicamente, tentando controlar sempre a música, mas que ela deve deixar mais a música tomar a frente.
Ela está atacando justamente esse super controle que a Wandinha quer ter de tudo. E eu não acho seja sobre perder o controle total sobre a música (ou a vida)… seria mais para ela parar de tentar prever tudo. Como falamos antes, ela não relaxa, e por isso é tudo tão rígido. Isso vai obviamente perpassar na forma dela interagir com música, na forma dela tocar.
É muito fácil observar que durante a temporada inteira ela tenta modificar o futuro (pois ela tem visões do futuro)… Só que muita coisa não sai conforme o planejado. E ela o que para se centrar ? Sim, a música!
Agora eu lhes pergunto. O quê na música tem essa função de centramento?
O ritmo!
O ritmo é a base de tudo. Ele é algo mais fixo, regrado (percebe a conexão?)
Mas então se o mundo ao redor dela dispersa ou não segue como o planejado, ela busca esse centramento em outro lugar. Seja na música, seja na forma dela falar, agir ou andar. Mas ela também usa outro atributo musical além do ritmo. O silêncio.
Só que ela usa ele de foram estratégica: Para colher informações, observando as pessoas, as situações, os comportamentos. E usa também em momentos que ela se sente acuada, sem saber o que fazer ou para proteger a amiga.
Na série ela descobre o futuro da sua amiga “Enid”, mas ela não conta a verdade por cautela. O silêncio é mais alto, uma forma de proteção.
COMO FAZER O SOM SE COMPORTAR?
Talvez o caos que algumas pessoas precisam abraçar não seja o caos total ou a bagunça… mas pequenas imperfeições dentro de uma estrutura que sempre foi rígida.
Se usarmos a música como metáfora da vida, e se eu fosse ajudá-la através da música ou musicoterapia, eu trabalharia inicialmente dentro de uma estrutura mais planejada e aos poucos eu pediria para ela quebrar um pouco o que já está “feito”, o que já está escrito.
Eu pediria para ela estender um som um pouco mais em lugares diferentes, ou fazer uma pausa maior do que o esperado. Falaria ou mandaria ela ser regida por um maestro louco que mudaria tudo de uma música e pediria pra ela fazer tudo ao contrário do que ela espera (risos).
Talvez assim eu “quebrasse” um pouco desse controle e “frieza” dela sem ela deixar de ser quem ela é.
Mas é aí que eu também fico pensando…Quantas pessoas parecem duras demais… frias demais…Quando na verdade só estão tentando manter alguma coisa estável enquanto o resto é imprevisível? Porque o mundo é imprevisível.
Eu mesma sou uma pessoa que tendo a querer controlar tudo do meu dia, e se algo sai do planejado eu ainda não lido muito bem. Mas o meu é muito mental, se estendendo para o físico em formato de dores de cabeça rs
Mas e você? Já viu alguém assim? Se sente dessa forma? Que tal trazer algumas imperfeições pro seu dia a dia?
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