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Por que a trilha sonora de Peaky Blinders É TÃO genial?


Estou assistindo à série “Peaky Blinders” e algo me chamou atenção: A trilha sonora. Uma trilha sonora deve sempre conversar ou potencializar a narrativa da história. Se for uma trilha ruim, você pode prejudicar toda uma cena bem feita.

Inclusive, o meu TCC na época da faculdade foi justamente sobre a relação entre imagem e som. Se quiserem, posso até trazer um vídeo com essa análise de forma simplificada, mas eu analisei um curta-metragem (The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore).

Mas o que acontece é que esta série consegue fazer isso de uma forma muito criativa. Para ambientar vocês, a história se passa em Birmingham, na Inglaterra, logo após a Primeira Guerra Mundial. Mostra a vida da família Shelby e da gangue Peaky Blinders liderada pelo Thomas Shelby, interpretado pelo ator Cillian Murphy.

Os Peaky Blinders comandam a cidade em um período histórico muito difícil, atuando inicialmente com apostas ilegais, depois com contrabando, e vão aos poucos expandindo e lidando com inimigos maiores como a máfia, comunistas e também fascistas conforme os anos vão passando. Conforme a série passa eles vão ficando cada vez mais ricos e poderosos.

A série consegue retratar muito bem visualmente a época. E o legal é que a trilha sonora conversa com a história de uma forma peculiar, já que envolve estilos como rock, post-punk, blues rock e folk, que não são daquela época.

A MÚSICA DE ABERTURA DE PEAKY BLINDERS

Vamos começar falando da música inicial. Essa música, incrivelmente, não foi composta para a série! Ela é da banda Nick Cave and the Bad Seeds e foi lançada em 1994.

A música fala de um homem poderoso, alto e bonito, que caminha pela cidade e tira ou dá as coisas que você quer. Fala que ele é um Deus, ou um fantasma, impressionando as pessoas por onde passa e sempre mencionando a sua mão vermelha (que é o título da música).

É assustador como isso se parece MUITO com o personagem Thomas Shelby e com todo o poder e inteligência que ele transmite. Por isso choca o fato de não ter sido escrita para a série.

Essa expressão “Mão Direita Vermelha”, que é o título da música e se repete na letra, tem origem no poema “Paraíso Perdido”, do autor John Milton. No poema, a “mão direita vermelha” simboliza a justiça vingativa de Deus contra os anjos caídos. Já na música, tem um sentido que parece descrever um poder sombrio desse homem que anda pelas ruas.

Se pensarmos na série, como se o homem fosse o Thomas Shelby, essa “mão” pode simbolizar um controle, poder e vingança sobre os inimigos, criando essa visão quase divina dele no ambiente em que vive, seja pra liderar a própria família ou a cidade de Birmingham.

Ao longo das temporadas, a música vai ganhando novas versões com outros intérpretes, o que até contribui com essa expansão de poder e negócios que os Shelby têm.

Versatilidade seria uma boa palavra para descrever a música e a situação dos Shelby. Porque eles crescem tanto que não são mais uma voz só.

E tanto essa música quanto as outras têm estes estilos mais de rock, post-rock, punk. E o que tudo isso tem em comum? Ritmos que remetem à rebeldia. Ritmos que falam de contestação social, política e comportamental. Só que esses estilos musicais surgiram mais pra meados do século XX, o que parece deslocado da atmosfera dos anos 20 da série.

O CONTRAPONTO DE SIGNIFICADOS MUSICAIS EM PEAKY BLINDERS

Mas é justamente este contraponto que é tão perfeito! Porque os Peaky Blinders são essa rebeldia, são esse contraponto. E não só eles, mas tudo que gira ali ao redor: as apostas, os próprios comunistas que surgem questionando o capitalismo… Se você colocasse uma trilha sonora comum de época nesse ambiente, ia ficar morno demais.

E ao mesmo tempo, temos algo muito interessante que ocorre na música principal de abertura: Observem a repetição sonora. (Inclusive, curiosidade: no início o cantor não tinha gostado muito do instrumental por ser repetitivo, mas a banda insistiu para que ele escrevesse uma letra e deu no que deu).

A música “roda” basicamente em 3 acordes, mas fica bastaaaante tempo presa num baixo característico repetitivo também. Musicalmente, uma repetição assim, na base e na harmonia, funciona como uma ‘cama’, um berço. Ela dá uma segurança pro ouvinte, porque o seu ouvido relaxa sabendo exatamente o que vai ser tocado a seguir. Você pode até não entender de teoria musical, mas o seu ouvido sente quando a música traz algo estranho ou quando traz uma resolução confortável.

E por que esse conforto importa tanto na série? Porque a história se passa logo após a Primeira Guerra Mundial, um período de muita escassez. Então, essa cama sonora traz um charme para a atmosfera, que conversa perfeitamente com a ascensão da família Shelby. Conforme a série avança, a gente vê a família ganhando mais poder e dinheiro, o que reflete no visual: o glamour das festas, os brilhos, as lantejoulas e o luxo das classes mais altas.

Só que aí vem a genialidade: o contraste! O baixo da música e o luxo visual te dão conforto, mas a letra da música te dá um soco. Ela fala de um homem sombrio e perigoso, avisando que, por baixo de todo aquele glamour e dinheiro, os Shelby continuam sendo perigosos e violentos. Inclusive quando eles mesmo tentam se afastar de toda a violência, algo sempre acontece e os puxa de volta.

E é por isso que essa trilha sonora é tão genial e prova o que eu pesquisei lá no meu TCC: A imagem e o som não apenas conversam, eles constroem a história juntos. A produção foi brilhante ao usar o rock e o punk para traduzir a rebeldia do pós-guerra e misturar isso com o luxo dos anos 20. Eles pegaram uma música sobre um homem perigoso e transformaram no hino de uma família que te seduz com o dinheiro, mas te assusta com a violência.

Eu achei incrível e vocês?

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